O autor da série ‘Millenium’ foi um dos mais influentes jornalistas e ativistas políticos de seu país

www.containercultura.com.br

Como fiz com Patricia Highsmith, minha autora favorita, há algumas colunas, resolvi escrever este texto sobre a importância da (curta) obra do sueco Stieg Larsson, responsável pela mais sólida série de livros policiais da literatura contemporânea. Se você ainda não conhece, vai se surpreender. Caso já conheça, puxe a cadeira mais próxima e iniciemos a conversa.

Eu tinha 18 anos quando “Os homens que não amavam as mulheres”, primeiro livro da série “Millennium”, chegou ao Brasil. Na época, eu já era apaixonado por literatura policial, vinha lendo todos os clássicos europeus e norte-americanos e escrevia os primeiros rascunhos de “Suicidas”, meu romance de estreia. Ao encontrar “Os homens que não amavam as mulheres” na livraria, lembro com clareza que o elogio do Luiz Alfredo Garcia-Roza na contracapa me fez correr ao caixa e levar o livro para casa. Devorei as 522 páginas em um fim de semana. Ao concluir a leitura, tive a certeza de que estava diante de algo grandioso.

Em seu romance de estreia, Stieg Larsson realiza literatura em sua plenitude. O volume permite várias camadas de leitura: na superfície, uma trama instigante que entretém o leitor desde o prólogo elegante até o final. Em observações mais atentas, o livro revela uma linguagem apurada, traz críticas sociais pertinentes e questões políticas contemporâneas pouco abordadas pela literatura. Sem dúvida, Stieg Larsson foi o primeiro autor a fazer um “romance policial do século XXI”, num estilo pop e vibrante, explorando todas as possibilidades tecnológicas que nosso tempo permite e retomando com força esta tendência da literatura policial de ser, antes de tudo, uma literatura que reflete as mazelas da sociedade.

Nesse livro, Stieg Larsson se revelou um profundo conhecedor da tradição de crime fiction: em suas primeiras páginas, “Os homens que não amavam as mulheres” lembra um whodunit tradicional de Agatha Christie, com um desaparecimento misterioso, suspeitos em um local fechado e um detetive contratado para investigar o crime ocorrido anos antes. Partindo dessa premissa clássica, a obra ganha contorno e ritmo modernos, principalmente graças a seus dois protagonistas, o jornalista Mikael Blomqvist e a problemática hacker Lisbeth Salander.

Enquanto “Os homens que não amavam as mulheres” homenageia o romance policial clássico inglês, os dois livros seguintes da série “Millennium” abraçam outros subgêneros da literatura policial. Com trama ágil, “A menina que brincava com fogo” faz lembrar um thriller noir americano, com ganchos em cada capítulo e um vilão implacável que ameaça a vida dos protagonistas ao longo das páginas. Neste segundo volume, Mikael e Lisbeth são levados ao submundo da sociedade sueca e precisam enfrentar seus inimigos não apenas com o cérebro, mas com os punhos. Já o terceiro livro, “A rainha do castelo de ar”, tem referências ao romance de espionagem e certas pitadas de livros de Ian Fleming, criador de James Bond, e de John Le Carré.

Merecidamente, a série “Millennium” vendeu mais de 80 milhões de exemplares no mundo e rendeu quatro filmes: “Os homens que não amavam as mulheres”, “A menina que brincava com fogo” e “A rainha do castelo de ar”, todos lançados em 2009 na Suécia, e o americano “Millennium: Os homens que não amavam as mulheres”, estrelado por Daniel Craig e com direção de David Fincher, de 2011.

Pelo que se diz, Stieg Larsson pretendia escrever dez livros protagonizados por Mikael e Lisbeth. Para mim parece claro que Larsson pretendia homenagear um subgênero do romance policial em cada volume — há muitos outros como o suspense médico, o thriller psicológico, etc. Infelizmente, o autor não teve tempo de ver todo o sucesso que seu trabalho alcançou: ele faleceu em 2004, aos 50 anos, de um ataque cardíaco, antes que seu primeiro livro tivesse sido publicado na Suécia.

A própria história de vida de Stieg Larsson parece uma trama policial: o autor foi um dos mais influentes jornalistas e ativistas políticos de seu país. Fundou a revista “Expo”, onde denunciou organizações neofascistas e racistas. Quando Larsson morreu, por questões jurídicas, Eva Gabrielsson, companheira do escritor por 32 anos, não teve direito a nenhum tostão da fortuna obtida com a série “Millenium” — isto porque ela e Larsson nunca se casaram oficialmente. O pai e o irmão do autor foram considerados os únicos herdeiros à luz da lei sueca, claramente obsoleta.

Ansiosos por continuar a série, os editores suecos contrataram David Lagercrantz, coautor de “Eu sou Zlatan Ibrahimovic”, a biografia do atacante sueco, para a insana tarefa de escrever o quarto livro da série a partir do zero. Ano passado, o livro “A garota na teia de aranha” foi publicado no Brasil e tive a oportunidade de lê-lo. Como já era de se esperar, a história não chega aos pés das três anteriores. Só existe um único Stieg Larsson — e nada pode ser feito a respeito disso. Mas, se ao contrário de mim, você ainda não mergulhou nas aventuras ao lado de Mikael e Lisbeth Salander, corra até a livraria mais próxima para se deliciar na melhor série policial dos últimos tempos.

Fonte: O Globo

Quer conhecer os livros de Stieg Larsson? Então entre na Container Cultura, o seu Sebo Online!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *